Susana Rodrigues


Crítica pessoal à obra “O Condomínio da Terra” de Paulo Magalhães

Posted in Quercus por Susana Rodrigues em 18 de Dezembro de 2009

“Todas as revoluções não acontecem na natureza, mas na história do pensamento humano.”

Se se pode dizer há quanto tempo o Homem se tem vindo a auto-destruir, foi exactamente a partir do momento em que se tornou o centro das atenções. Na história da humanidade existem três importantes mudanças do pensamento humano. Primeiro vivia-se segundo o Geocentrismo – o Homem vivia em paz e harmonia com o que a Terra lhe dava; a pouco e pouco foi-se dando mais importância a Deus e ao que era sua obra – Teocentrismo. Na Idade Moderna nasce uma nova maneira de encarar o mundo e impõe-se à anterior… começava assim o antropocentrismo. Deus deixa de estar no centro do universo para passar a ser o Homem a ocupar esse lugar, sendo que segundo esta concepção a humanidade deve permanecer no centro do entendimento entre os homens.

É importante esclarecer isto, porque tal como Paulo Magalhães afirma: “O problema não é do ambiente mas da adaptação do Homem a ela.”, ou seja, o que se pode fazer numa tentativa de salvar o planeta é mudar urgentemente a relação entre humanos. Não importa saber quantos graus aquece ou em quanto tempo aquece porque isso nunca se vai saber ao certo. O mais urgente é chegar a um consenso.

Soberanias

Habitando numa sociedade baseada no “conhecimento segmentado”, com várias áreas de intervenção social há falhas nas interligações, os erros tornam-se imperceptíveis e não se pode atribuir a culpa a uma delas, mas sim a todo o sistema humano – o erro está nos elos de ligação.

O sistema humano dividiu o planeta em soberanias estabelecendo fronteiras imaginárias, que a poluição atravessa porque, como se disse não passam de imaginárias. O problema é quando se confunde as abstracções que criámos com o que já cá estava – “Não podemos confundir espaço aéreo com atmosfera, não podemos confundir zona económica exclusiva com oceano”, explica o autor, defendendo a criação de um modelo que olhe para atmosfera, a hidrosfera e a biodiversidade como bens comuns.

O Homem (ou a maioria) só se preocupa com as organizações de grupos humanos, cada um com os seus interesses e esquece-se da realidade física e biológica do planeta e das interligações que sustêm este elo entre todos os homens, que é a Terra.

O autor defende que temos que dar uma nova dimensão às divisões jurídicas: “um direito dos homens, pelos homens, para os homens.”, ou seja, não dominar, mas dialogar e negociar de iguais partes.

Os três sistemas

O Homem vive inserido em sistemas como a biosfera – que inclui hidrosfera, seres vivos, e em que a espécie humana interage entre si e o ambiente; e a sociosfera – sistema artificial de instituições criadas pelo próprio ser humano, e como tal tenta encontrar um equilíbrio entre estas, fazendo-as interagir.

Para o funcionamento entre estes sistemas, o Homem acabou por criar um outro – tecnosfera – uma plataforma que inclui a ciência e a tecnologia: criados para descobrir, perceber e evoluir no que toca à biosfera e à sociosfera, ou seja, à relação com a natureza e entre humanos.

A tecnosfera acabou por se tornar um mal necessário, uma vez que, ao mesmo tempo que nos ajuda a conhecermos o mundo que nos rodeia (e a nós próprios), acarreta um forte impacte ambiental. Os recursos naturais são “usados e abusados” e acabam por se transformar em material não degradável, o que destrói aquilo para o qual trabalharam. E a sobrevivência da biosfera depende do equilíbrio entre estas três esferas.

Ou seja, o problema actual é o desajuste entre as interacções destes sistemas, consequência do problema primário – o desajuste nas relações humanas. 

 

 

Natureza pensada e materialismo

A natureza que o Homem conhece, o autor chama de “natureza pensada”. O Homem, muitas vezes, pensa que controla a natureza mas, repare-se nos números: com cerca de 8.000.000 anos e 1.800.000 espécies. O ser humano não conhece metade das espécies existentes no planeta. O autor defende que esta é real, e não o que o homem pensa que ela é, só pelo simples facto de que não é obra sua. Se a situação se mantiver e nada se fizer para inverter, num futuro próximo será a natureza a ditar as relações humanas, ao contrário do que o homem pensa e do que tem sido até aqui.

Da mesma forma, a biosfera desde sempre foi globalizada e interdependente. O Homem foi descobrindo o que a natureza sempre soube. Tudo já lá estava, as coisas não começaram a acontecer quando ele as descobriu.

As alterações climáticas também estão em marcha e a aproximar-se de um ponto irreversível; não estão à espera que o homem descubra os seus efeitos para acontecerem.

A natureza é muito maior do que o Homem e é escusado tentarmos ser donos dela. De qualquer forma, acho perfeitamente natural que este a queira explorar e conhecer o máximo possível.

 E agora estou a falar contra mim mesma (e contra todos da minha espécie), porque para explorarmos a natureza (e imaginemos uma simples escalada ou um mergulho) precisamos de recorrer aquele sistema que nós próprios criámos: a tecnosfera. Para fazer um simples mergulho ou uma escalada precisámos de material – material esse fabricado a partir dos recursos naturais. E o problema não é a utilização dos recursos em si, mas os conceitos de exclusividade, de identidade, de domínio e controlo que estão cada vez mais presentes na vida do homem e fazem com que este seja cada vez mais materialista.

O materialismo resulta sempre em excesso – cada pessoa compra o próprio fato de mergulho mesmo que possa alugar, o próprio material de escalada para ser melhor do que o do outro, conduz o próprio carro mesmo que tenha sempre lugares vagos e o vizinho que faz o mesmo trajecto também.

São estas pequenas excentricidades, esta busca pelo conforto e pelo fácil que fazem com que em todo o mundo toda a gente cometa os mesmos erros. Não nos entendemos em relação ao nosso maior interesse mas agimos de forma imitativa no que toca a futilidades.

Repensar o modo de pensar

O Homem tem que repensar a sua forma de pensar o mundo. Porque falhámos até aqui? Se alguma coisa escapou, está na altura (e já vamos atrasados) de repensar para poder começar a agir o mais rapidamente possível.

Paulo Magalhães afirma que o Homem tem consciência da existência de conflito mas não entendeu ainda a origem do mesmo. Daí o “grito” deste jurista para a Humanidade reformular a sua acção.

Noção de limite

Olhar o oceano e ver a sua grandiosa imensidão, olhar para o céu e não perceber onde termina são exemplos de actos que nos dão uma noção (errada) de infinito. A isto o autor dá o nome de “presunção de inesgotabilidade”. Desenvolvemos uma falsa segurança de que a biosfera não tem fim e de que temos liberdade para usufruir dela o quanto quisermos.

Só recentemente (e digo em relação à história da humanidade) é que começa a ser evidente a acção do Homem na Terra. Só de há uns anos para cá é que se vêem fotografias de lagos tingidos por fábricas com peixes mortos a boiar, imagens de satélite do buraco de ozono, resultados de estudos sobre cancro de pele, entre outros. Quero com isto dizer que a realidade se tornou real para o Homem, talvez um pouco tarde demais para a natureza.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente” é um ditado popular antigo, que se aplica ao que quero dizer. Com a Revolução Industrial, o fabrico em massa ficou tão facilitado que o acesso às coisas se tornou trivial. As pessoas começaram a ter mais conforto e acesso a coisas que não existiam antes, e isso era (e ainda não deixou de o ser) o mais importante. Não era visível a poluição da fábrica X ou Y, não se pensava que por comprar um produto, centenas de animais e plantas sofriam consequências por isso.

É recente a exposição e consciencialização desta consequência do acto humano, é pena é que já vamos atrasados e precisamos correr para evitar que os nossos actos se tornem irreversíveis. Mas para piorar a situação, para além de termos sido os grandes responsáveis pela destruição do único planeta em que vivemos, somos tantos a opinar que nunca mais revolvemos nada. Estamos atrasados e não nos mexemos.

Neste ponto, Paulo Magalhães ajuda-me a reforçar a ideia: “Esta evolução tem estado profundamente marcada por um impasse histórico de um mundo que sabe que tem de mudar, mas que para todos os efeitos ainda não mudou.”.

E assim, as previsões não são as mais animadoras. Ora, se estamos estagnados a tentar prever o que pode acontecer, quais os efeitos de determinadas acções, a calcular em quantos graus vai aumentar a temperatura da atmosfera global e em quanto tempo, a que velocidade, etc. é impressão minha ou, para isto, estamos a usar e abusar da tecnosfera e a destruir ainda mais os outros dois sistemas?

Qual é a divergência? 

Se o interesse é de todos, se todos precisamos deste planeta, porquê tantas divergências?

Os líderes governamentais preocupam-se com a economia e com a política global, puxando sempre “a sardinha à sua brasa” mas não entendem que se não pararem, daqui a alguns anos já não vão ter com o que se preocupar porque a Terra se vai tornar inabitável e não há um planeta B!

A resposta vai sempre convergir ao mesmo ponto: as soberanias. A ideia mais forte e talvez mais utópica de Paulo Magalhães é que tem de se acabar com hierarquias e adoptar um sistema de igualdade. É perceber que somos um.

 “E tudo falha quando se separa o que é uno.” – Esta ideia é quase um pré-requisito para aqueles que querem realmente tomar medidas eficazes.

* as citações são todas de Paulo Magalhães

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